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O ÀIYÉ de Larissa Conforto

 

A compositora Larissa Conforto (ÀIYÉ)  é atração do Balaclava Fest. Foto por: Zi Fernandes

Atração do Balaclava Fest – que ocorrerá em SP, no dia 13 de outubro -, Larissa Conforto deve lançar ainda neste mês o primeiro disco do seu projeto solo ÀIYÉ. O single Pulmão, único gosto que será dado do álbum até seu lançamento, busca proporcionar uma viagem pela inusitada mistura de uma percussão espiritual e camadas de música eletrônica.

Em entrevista ao Noise Gate, Larissa conta um pouco mais sobre sua carreira e o desenvolvimento do projeto:

Como foi sua inserção no mundo da música?

Eu nunca fiz outra coisa que não música. Eu comecei a tocar bateria com 13 anos de idade. Desde os meus 17 anos eu já trabalhava com música; fui DJ, tive muitas bandas e já trabalhei em gravadora. Tenho muitas histórias loucas – até lancei o cantor Naldo. No geral, sempre fui baterista. Trabalhei muito no coletivo e como baterista contratada de artistas como Tiê, Paulinho Moska e outros. Também participei da criação das bandas Tipo Uísque e Ventre, que entrou em hiato no ano passado. As duas terminaram após show no Lollapalooza – se me chamarem para apresentar o trabalho solo no festival, vou ficar com medo. Já pensou acabar a carreira solo?

E de onde surgiu a criação do projeto ÀIYÉ? Quais foram as inspirações?

Quando a Ventre acabou no ano passado, eu estava tocando com outros artistas e percebi que nesse processo, sendo mulher e percebendo o impacto disso na estrada, outras mulheres instrumentistas estavam se ajudando e criando projetos paralelos. No Brasil inteiro, ganhei amigas por estar ali no palco. E isso foi me dando mais vontade de compor e dizer as coisas que penso com base na minha vivência como mulher. Para mim, o álbum da Elza Soares [Deus é Mulher, lançado em 2015] mudou tudo. Aquilo ali foi um turning point para todas as mulheres e para mim. Além disso, também comecei a pensar muito no nosso papel como latino-americanos, pois estamos observando a ascensão de uma corrente muito bizarra de uma extrema-direita no mundo inteiro. Acho que além do feminino, o projeto busca falar sobre outra linguagem: O mistério, a coisa por trás da fala e da razão. Quero mostrar algo além do olhar carregado de apenas razão – algo extremamente ligado ao patriarcado. A existência é feita de diversas coisas além dessa visão racional das coisas. Tem muito a ver com a bruxaria. Nós somos netas das bruxas que não conseguiram queimar – a mulher carrega isso e devemos lembrar de nossas ancestrais.

Como foi desenvolver a sonoridade que será carregada por uma palavra tão poderosa como Àiyé (iorubá para Terra)?

Realmente é muito forte. A palavra não é apenas a Terra em sua forma física, àiyé é o lugar onde todos os corpos e diferenças habitam juntos. É o mundo físico de todas as almas que precisam se expressar. Foi bem desafiador criar o som. O nome veio depois, mas o conceito já habitava em mim há muitos anos. Estudo os tambores latino-americanos há algum tempo e podemos dizer que eles mudaram a história de nossos ancestrais. Eu queria trazer isso para uma linguagem futurista, da música eletrônica. Por isso, utilizei samples de diferentes ritmos da América Latina; às vezes misturando os tipos sonoros entre si.

O tambor é um instrumento muito ligado ao espiritual, certo?

Exatamente. A mão no coro é o que abre o portal para a espiritualidade. Em toda gira de Umbanda, quem toca o tambor (ogã) é quem abre e fecha o portal para a entrada dos espíritos. O tambor tem esse papel de colocar todo mundo no mesmo ritmo e criar uma sinergia das pessoas naquele lugar. É engraçado que em todos os rituais da América Latina sempre tem a presença de um tambor ou chocalho para marcar o ritmo e lembrar do pé na terra. É isso que tento trazer aliado à uma roupagem eletrônica.

Como será tocar no Balaclava Fest, que contará com a presença da Elza Soares?

Estou nervosa. Já toquei em NY e fui super bem recebida, mas tocar no Brasil será diferente, com certeza. A Elza é maravilhosa, até tinha esquecido que estaríamos no mesmo lugar quando te falei do Deus é Mulher. Além dela, também sou muito fã do Battles; uma das minhas músicas começou com um sample deles, que acabei substituindo eventualmente. Eles têm umas baterias muito loucas de math rock e, como baterista, sempre bebi muito dessa água. Não acredito que vou “estrear” o meu projeto no dia do Battles e da Elza.

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