Browse By

Por dentro do ‘Lókidown’ de Arnaldo Baptista

Em entrevista ao Noise Gate, Arnaldo Baptista conversou sobre completar 72 anos e a sua rotina durante o isolamento. Colagem: foto de Fabiana Figueiredo e  obra “Dream Set” produzida por Arnaldo

Prestes a completar 72 anos no dia 06 de julho, o compositor, multi-instrumentista e artista plástico Arnaldo Dias Baptista entrará ao grupo de milhares de pessoas que farão ou fizeram aniversário durante o isolamento social causado pelo coronavírus. Para conseguir comemorar o aniversário em grande estilo, sua esposa Lucinha Barbosa sugeriu que o fundador dos Mutantes promovesse uma festa online com seus seguidores. 

A geniosa ideia foi convidar os fãs da obra solo de Arnaldo a gravarem covers e enviarem suas homenagens ao cantor – vale gravar uma canção de qualquer disco solo, exceto de “Lóki ?“, que receberá uma homenagem em outro momento. Amigo e fã de Arnaldo, Rod Krieger foi recrutado para ajudar o próprio na seleção das melhores interpretações da obra. 

Sobre a comemoração, Krieger explicou ao Noise Gate: “Hoje muitas pessoas estão fazendo vídeos na internet de seus artistas favoritos,  por isso decidimos juntar alguns artistas e fãs de todos os gêneros e níveis musicais para celebrar o aniversário. [Arnaldo] sempre fica muito feliz quando as pessoas fazem versões de suas músicas, essa é a grande importância da ação”.  Para a seleção dos vídeos, o critério de escolha será a “demonstração de paixão e carinho”.

Rod afirma sobre os covers que “não importa se é um músico profissional ou amador, o mais importante é ser de verdade. Eu sei por experiência própria que aquelas músicas são super difíceis, então, a intenção é o mais importante. Já vi alguns vídeos e estão lindos”! Clique aqui para saber como enviar sua versão.

Direto de seu apartamento em Belo Horizonte, Arnaldo Baptista deu uma entrevista exclusiva (por telefone) ao Noise Gate. Contou mais sobre a iniciativa de Lucinha, sua fase atual de vida e o que vem fazendo durante seu isolamento.

Confira a conversa logo abaixo:

Como você está?
Eu tô legal! Tô numa ótima; comemorando o meu lado de idade.

Qual é o pensamento que está na sua mente agora que você está quase completando 72 anos?
Ah! Eu tô pensando a respeito de uma coisa chamada criogenização; o Timothy Leary escreveu sobre isso em um livro dele.  Eles congelam o seu corpo e você fica que nem um faraó. Estou pensando em fazer isso. Me criogenizo e peço para sair só quando conseguirmos passar da velocidade da luz. Sei que isso é possível, pois já vi um disco voador fazer isso; ele aparecia e depois desaparecia longe e muito rápido. Nesse sentido, se essa tecnologia for acessível no futuro, eu gostaria de poder explorar os novos mundos que existem por aí.

Como surgiu a ideia de comemorar o seu aniversário com covers dos seus fãs?
Isso é uma coisa que veio da minha companheira de vida Lucinha Barbosa. Ela falou que seria melhor conseguir uma comunicação de acordo com os nossos poderes – para não fazermos que nem o Bolsonaro que fica andando sem máscara no meio da multidão. O vídeo é algo mais íntimo e traz a presença de todos dentro das circunstâncias atuais. E assim a quarentena vira a quare-Antena.

E por que decidiram focar em seus outros trabalhos solo além de Lóki?
O Lóki? já tá meio batido, então queríamos ver, através da interpretação das outras músicas, como é o outro lado que as pessoas me sentem e me vêem.

De todos os trabalhos que você gravou (sozinho ou com os Mutantes) qual te deu mais orgulho?
Eu acho que no sentido de conquistar uma vida própria foi o “Lóki?”. Inclusive, quando a gente terminou de gravar o LP, o Liminha [baixista da formação clássica do Mutantes] falou para mim “ô Arnaldo, isso tá igual ao Sérgio Mendes; tá um horror vamos fazer de novo”. Eu falei “Não! Vamos deixar assim” e o disco foi lançado do jeito que estava. Eu fiquei contente quando ele falou que tava meio bossa nova. Gibson Acorda, por Arnaldo Baptista

Como você está ocupando o seu tempo na quarentena?
Eu tenho pintado muito. Cada dia tenho uma ideia diferente e às vezes consigo uns resultados muito bons. Quero fazer novas exposições logo! A pintura é muito importante para mim e é mais antiga que a música. Também faço exercícios físicos diários e sem exagero.

O que você tem ouvido?
Eu gosto muito do Oscar Peterson [pianista de jazz]. Sempre que ouço me dá uma luz no sentido de improvisar no teclado.

Improviso sempre foi uma coisa muito forte na sua música, certo?
Puxa, é uma coisa tão importante. A gente se vê solto e às vezes dá um passo mais largo que a perna e erra, mas é isso que vai dando forma ao que temos. Isso também acontece quando eu pinto. Às vezes tem uma mancha que eu levo no improviso e acaba deixando o quadro melhor. É errando que se aprende!

Atualmente, você prefere se expressar fazendo suas pinturas ou tocando música?
É interessante isso. Quando você é um pintor, você só precisa de um lápis, uma tela e tintas à óleo para pintar igual ao Salvador Dalí ou o Leonardo da Vinci. Já quando você tenta ser músico e quer tocar igual ao Jack Bruce [baixista do Cream], você tem que ter um instrumento Gibson [retratado em vários desenhos do acervo de Arnaldo] e um equipamento tipo Marshall. Nas artes plásticas um equipamento caro não é tão necessário. Agora, eu tô com vontade de agradecer as pessoas que têm feito coisas comigo e modificam a minha vida – seja colaborando comigo ou me dando um contrabaixo Gibson e essas coisas. Eu agradeço mesmo!

Como você encontra inspiração para a produção artística?
Ela vem muito com pesquisa. Agora, estou com uma ideia de som “esferofônico” – de acordo com as leis da física, um som que vem de cima, baixo, frente, trás e todos os lados. Para conseguir reproduzir isso, estou tentando construir uma estrutura geodésica em que vou colocar os alto-falantes.

[Arnaldo aproveita a deixa entre uma pergunta e outra para falar novamente sobre discos voadores]
Ah, uma outra coisa! A respeito dos discos voadores. Eu acho que a gente devia tentar ser mais amigável com eles. Se um disco voador quisesse entrar em contato com nós humanos com quem ele iria falar? Com o Papa e seu olhar pragmático e empírico? Acho que seria difícil. Deveríamos tentar falar com eles até em esperanto.

O que você entende que é importante para melhorarmos como seres humanos?
Acho que a gente tem que procurar onde estão os nossos defeitos e fazer o possível para saná-los para nós e os outros que convivem conosco. 

Hoje você se sente feliz?
Eu ainda não tenho aquela construção geodésica com o som “esferofônico”, mas quando eu conseguir vou me sentir mais feliz, pois estarei conseguindo fazer mais o que eu sinto em função do público.

Matéria por Erich Mafra

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *