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Exclusivo: entrevista com Thurston Moore

Noise Gate - Thurston Moore

By The Fire, novo disco de Thurston Moore, será lançado pela Daydream Library Series. Foto: capa do álbum

Membro fundador do Sonic Youth, o guitarrista e compositor Thurston Moore lançará seu sétimo disco de estúdio em 25 de setembro. Intitulado By The Fire, o trabalho será lançado pelo Daydream Library Series, o selo fundado por Moore e sua parceira Eva Prinz. Diferente de Spirit Counsel, coleção de três discos instrumentais lançada pelo músico em 2019, o novo álbum terá músicas cantadas pelo lendário guitarrista.

Para celebrar a ocasião, o Noise Gate entrevistou Thurston – que já está em estúdio trabalhando em um projeto “secreto”.  No papo, o músico falou sobre  By The Fire, a América da Era de Donald Trump e amadurecer.

O que você está fazendo no estúdio agora?
Acho que eu posso falar, não tenho certeza, mas estou trabalhando com Bobby Gillespie do Primal Scream e outro músico que amo chamado Jonah Falco em um projeto de trilha sonora para o filme de um dos meus diretores favoritos. Em breve os detalhes serão divulgados!

Spirit Counsel foi uma bela e experimental viagem por sua paleta sônica. Como a experiência de gravar as três peças de Spirit Counsel influenciaram você?
Eu estava focado em escrever composições instrumentais extensas para guitarras elétricas. Essa é uma música com que me engajo desde o principio dos anos 80. Spirit Counsel foi a primeira vez que decidi lançar um álbum – na verdade, penso nele como três álbuns em um – com esse tipo de escrita. Ele me influenciou a incorporar algumas das ideias de composições longas em peças musicais mais econômicas.

Os singles Hashish e Cantaloupe mostram um som maduro, mas também possui aquele caráter cru de todo o seu trabalho desde o Sonic Youth. O que podemos esperar do seu novo álbum, By the Fire?
Eu posso descrever duas canções do novo álbum como acústicas solo e as outros sete com guitarras elétricas de 12 e 6 cordas. O “shredder James Sedwards e Deb Googe, a baixista do My Bloody Valentine, estão na minha banda desde os álbuns anteriores e se fazem presentes novamente. Para a maioria do disco, temos o percussionista Jem Doulton. Meu irmão do Sonic, Steve Shelley também está presente e trouxe um sentimento completo. A novidade é Jon Leidecker, conhecido como Wobbly, que se junta a nós em By the Fire com elementos eletrônicos – algo maravilhoso. Ele é uma bênção que veio para nossas vidas e música no ano passado. Jon também fez os remixes da música Hashish que serão lançados em um LP de 7 polegadas em outubro, ou sejá lá quando for a Record Store Day [ você já pode dar uma olhada no single aqui].

Essa divisão entre músicas solo e com a banda completa foi pensada antes da gravação do disco? Ou foi uma daquelas ideias que surge durante o processo de gravação?
Sim, as duas canções solo foram escritas quando a banda não estava por perto. Eu amo quando um álbum possui diferentes sonoridades entre uma canção e outra. Dessa forma não parece tudo a mesma coisa. Eu tentei fazer algo similar em algumas das minhas outras gravações também.

Como a epidemia do coronavírus e o isolamento do mundo afetaram By the Fire?
A pandemia realmente nos forçou a terminar o disco, a produção, a mixagem, a masterização e a arte do disco em tempo de um lançamento ainda em 2020, algo que considero positivo. A pandemia também nos forçou a ficar fora de turnês e dentro de casa Ao Fogo [trocadilho com o nome do disco By the Fire].

Nós tivemos alguns amigos que expressaram uma necessidade de repensar seus trabalhos desde a pandemia e a Revolução do Black Lives Matter. E nós nos sentimos afortunados de, ultimamente, entender que nossa música tem uma mensagem que possui um sentimento mais atemporal e universal do que aquilo que escrevíamos como músicos mais novos. Então ficamos felizes de não sentir a necessidade de refazer qualquer coisa. Tínhamos confiança em nossas ideias desde o começo.  Como pessoas mais novas, nós geralmente sentimos a necessidade de ser diferentes, e com a idade vem esse incrível senso de aspirar, mais do que nunca, a CONECTAR-SE com o máximo de pessoas possível. Veja só, essa conexão significa mais para mim do que significava no passado. Especialmente na canção Venus do disco novo – eu percebi que não conseguia pensar em colocar letras, porque a língua inglesa às vezes parece errada. Isso tira a gente da zona, pois somos lembrados de que o inglês é essa língua nojenta sendo falada por pessoas de países horríveis (como o Reino Unido do Brexit e o Estados Unidos construtor de muros), onde os líderes estão fazendo de tudo para nos desconectar. Com Venus eu não consegui colocar letras em quaisquer línguas, afinal Venus é amor.

Os EUA estão passando por um período muito turbulento- além da própria crise da pandemia, as eleições presidenciais estão se aproximando e o país está vivendo uma verdadeira revolução com o Movimento do Black Lives Matter. O que pensa sobre tudo isso que está rolando por lá?
Nós temos um grande sentimento de esperança por conta do que está acontecendo agora nos EUA. Não só pelo movimento Black Lives Matter, mas também com o movimento Black Trans Lives, que não só altera a luta contra o racismo, mas também desafia todas as estruturas ao redor do mundo que tenham a ver com essas “categorias” utilizadas em cadeias e outros sistemas que tentam manter controle sobre pessoas e fronteiras. Quando você questiona os conceitos de gênero, você consegue lutar contra muitas outras barreiras que jamais deveriam existir. Algumas pessoas referem-se ao que ocorre hoje nos EUA como uma “desordem racial”, mas não é nada disso. É algo muito maior. Hoje eu li na newsletter da revista Artforum que um museu removeu a palavra “Colônia” do nome deles; isso é algo que demorou, hein! Esse anúncio mostra que estamos tomando esforços para descolonizar. A ideia de que éramos complacentes com esse tipo de nomes é inacreditável, mas agora está acontecendo e estamos mudando nosso linguajar para ter certeza de que todos sintam-se pertencentes. Esse é um trabalho importante.

Thurston Moore e banda

Apesar de não ter sido feita por um profissional, a foto carrega significado: foi a última vez que a banda de Thurston se reuniu antes da pandemia. Da esquerda para a direita: James Sedwards, Thurston, Deb Googe, Jon Leidecker e Jem  Foto por: Jem Doulton

Algumas pessoas pensam que eu deixei a América do Norte porquê eu não gosto dela [atualmente, Thurston mora em Londres]. Claro, existem problemas como o controle de armas e os sistemas de ensino e saúde (sabemos que vocês não tem todo o dia para ler sobre todos os desafios da vida nos EUA), mas é um lugar com grande potencial e nunca vou desistir dele. Não creio que seja um país racista, mas no presente há um perigoso, truculento e idiota predador sexual/racista dentro da (surpresa,surpresa) Casa “Branca”. Ele é repulsivo e deve ser removido, mas talvez devêssemos repensar o nome daquele lugar enquanto ele é removido. Talvez até possamos rever a forma que o governo é comandado no geral. Pessoas como Bernie Sanders, Noam Chomsky e Angela Davis possuem várias ideias construtivas. Também poderíamos ouvir mais O Povo, ao invés de confiar em apenas uma pessoa. Espero que isso ocorra nas eleições que se aproximam.

Qual sua opinião sobre a (provavelmente falsa) candidatura de Kanye West ao cargo presidencial?
Não sabia que o Kanye West tinha a intenção de participar das eleições para a presidência. Só sabia que ele tem um novo álbum chegando. As ideias de que Nixon, Reagan e os Bush criaram um caminho para aquele idiota Homem Laranja [Trump] e que o cargo de Presidente dos Estados Unidos não possui nenhuma dignidade aparente – a ponto de qualquer um anunciar sua candidatura apenas para promover um álbum – mostra ao mundo o quão pouco aquele cargo significa. O escritório se tornou um press release para um artista.

Sei que o foco da entrevista é na sua carreira atual, mas gostaria de saber como você está se sentindo com os 30 anos de Goo, disco lançado pelo Sonic Youth em 1990?
Está sendo muito divertido comemorar o Goo!

Qual a diferença entre o Thurston de 30 anos atrás para o de agora, com 61 anos?
Devo dizer que é a resposta para uma de suas perguntas anteriores: é o genuíno desejo de conectar-me mais. Acho que isso é algo que vem com a idade ou as viagens. Às vezes eu desejo que tivesse me tocado disso um pouco antes na minha vida; quem sabe eu até saberia falar com você sem que precisasse traduzir a conversa depois. Até poderia cantar em português como alguns de meus músicos brasileiros favoritos (Marisa Monte, Thiago Nassif, Adriana Calcanhotto, Maria Bethânia e Vinicius Cantuária).


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Thurston Moore - Vera Marmelo

Thurston Moore em ação. Foto por: Vera Marmelo

Tracklist do disco:

1. HASHISH
2. CANTALOUPE
3. BREATH
4. SIREN
5. CALLIGRAPHY
6. LOCOMOTIVES
7. DREAMERS WORK
8. THEY BELIEVE IN LOVE [WHEN THEY LOOK AT YOU]
9. VENUS (instrumental)

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