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Boogarins: entrevista com Dinho sobre Manchaca Vol.1

Boogarins, por Valéria Pacheco

O Boogarins lançou seu disco Manchaca Vol. 1 como um pedaço de história da banda em um de seus períodos mais férteis. Foto: Valéria Pacheco

No fim de agosto o Boogarins lançou seu novo disco. Manchaca Vol.1 é uma coleção de “memórias, sonhos, demos e outtakes” gravados durante o fértil período do grupo em Austin (Texas). Nesse tempo nos Estados Unidos, os músicos Dinho Almeida, Benke Ferraz, Raphael Vaz e Ynaiã Benthroldo gravaram as obras Lá Vem a Morte e Sombrou Dúvida, os discos mais recentes do Boogarins.

Para saber mais sobre o novo disco e seu significado para a banda, o Noise Gate conversou com Dinho. Confira abaixo o resultado do papo e ouça o novo disco do grupo de Goiânia:

Sonhos, demos e outtakes. Qual é a sensação de lançar um projeto como esse que mostra um lado menos lapidado do Boogarins?
Na real, é um alívio ver essas músicas soltas,né? O Manchaca é isso; a abanda soltando todas as coisas que gravou quando estávamos fazendo o Lá Vem a Morte e o Sombrou Dúvida (que não é um período curto). Foi tipo de 2016 a 2019 quase. 

Tem essa coisa que você bota na pergunta que é o “menos lapidado”, mas o As Plantas Que Curam tem muito dessa coisa também – era a gente aprendendo a gravar e colocando essa impressão no negócio. Então acho que o Manchaca, apesar de ser desse processo mais recente nosso, ele tem um pouco disso. Tem música que é de um áudio de celular da primeira vez que toquei a música, tem gravações do Raphael fritando muito no íntimo dele e tem uma do Benke que também é isso. Ficamos animados vendo a recepção da galera (eles aceitam isso muito bem). Tem amigo meu falando que ele tá mais pop e menos frito. Acho foda, acho bem bom!

O Manchaca vai encerrar esse ciclo de vocês que surgiu no Texas. Você sente que ele vai tirar uma “carga” de vocês para criarem coisas novas?
Então, eu acho que sim, mas não é como se fosse uma carga para criarmos coisas novas. Estamos sempre fazendo vários trem. E essas são músicas antigas; agora já temos várias outras da fase nova nesse esquema. Mas sim, ele encerra, e acho que conta a história do Lá Vem a Morte e do Sombrou Dúvida. Durante as nossas reuniões quando vimos que a pandemia chegou, debatemos o que eram os dois volumes do Manchaca e vimos a possibilidade de fazer um lançamento importante mesmo nesse tempo confuso. Mais do que encerrar o ciclo, para mim ele firma a nossa possibilidade de continuar explorando qualquer tipo de som. Porque olha o tanto de coisa que a gente tá fazendo. Me deixa orgulhoso de saber que tinha esse tanto de música. E os meninos tem o mesmo sentimento; o Boogarins tá muito feliz com essa porra.

No ao vivo, o som de vocês tem muito improviso. Como isso funciona no estúdio? Vocês improvisam até achar algo? Ou tentam se controlar mais e fazer ideias mais concretas?
Bom, acho que você pode ter pensado essa pergunta ouvindo os nossos trem ao vivo mesmo. E é tudo sobre isso, Erich. Nesse período em Austin, aprendemos a domar um pouco essa doideira e ver o que queríamos. Por exemplo, Cães do Ódio – que tá no Manchaca – vem do improviso que fizemos na Casa das Janelas Verdes da Void, uma doideira de 15 minutos em que esse verso veio e cantei. Era uma ideia muito boa para só ficar naquela noite de improviso e metemos na canção. Então assim, eu acho que é esse eterno exercício: aprender o melhor jeito de fazer música e tirar o melhor de nós mesmos. 

O Boogarins ainda improvisa muito, mas a gente sempre tá de olho nas ideias e peneirando ali. Não dá para ficar estagnado. A criatividade é igual fogo, nós temos que alimentar. Agora falando de um lado mais técnico, é muito massa ver a evolução do Benke como produtor. Ver o que ele captura do som, que é muito essa coisa de pegar as chamas instantâneas, editar e costurar as coisas. Ver o que ele fez quando a gente foi para o estúdio maior mostrou muito esse processo.

Vocês fazem muito show no exterior e por aqui. Imagino que a pandemia tenha atrapalhado demais vocês e sua equipe. Como foi o impacto disso tudo?
Tá foda. A gente tá num malabarismo legal, sabe. Sempre conversamos com os meninos que trabalham com a gente para deixar claro que ajudamos quando dá. Fizemos uma live agora e conseguimos pagar um cachê de show para todo mundo. Mas tá difícil para todo mundo. A lojinha dá uma segurada também. Demos ‘sorte’ que os últimos anos foram para irmos nos organizando, sabe? Acho que se o corona tivesse vindo há uns dois anos estaríamos muito mais bagunçados e caóticos. Mas estamos colhendo os frutos do trabalho maluco que fizemos nos últimos anos – estamos desde 2014 fazendo umas tour maluca e já chegamos a fazer mais de 100 shows por ano. 

Somos uns meninão muito simples, acostumados com correria e em dividir o pouco que às vezes temos. O Renato, que faz som para gente, brinca que essa “empresa” é uma família.

E sobre coisa de show na gringa, a banda perdeu uma tour agora em maio. A gente ia fazer Portugal e Espanha, mas não rolou. Agora já tá começando a surgir conversa – tem alguns lugares lá fora que já vai ter show; clube pequeno na Dinamarca funcionando e outros lugares assim. Enquanto isso, aqui estamos na instabilidade, nessa situação de não ter um comando geral e um governo que dá umas respostas. É claro que a doença é imprevisível, mas podia ser melhor, sabe? Porque agora fica uma situação que, mesmo se liberar lá fora os shows, a gente não sabe se consegue sair daqui. Aqui é o caos, essa lógica maluca das mortes estarem valendo mais que vida para os caras. Esperamos que isso melhore logo, porque tá foda para todo mundo. E tem esse impacto que você não sabe como será o amanhã e qual a razão de estarmos fazendo show, mas temos que continuar e entender esse momento maluco.

Você enxerga o Boogarins onde daqui 10 anos?
Depois de eu ter dado essa resposta mais pesada fica até foda de falar, mas eu torço para que daqui a dez anos a gente possa ter essa energia maluca. Que a gente continue com esse exercício de criar e fazer música – e fazer com que isso possa sempre ser ressignificado. Quero ver o Benke fazendo os discos de muitos artistas foda – e os nossos também. E o Ynaiã desenrolando e ver um disco dele cantor e tocador. O Raphinha a mesma coisa. E felicidade, muita música e trabalho para nós. E mais gente fazendo música nessa lógica de quebrar os trem e misturar as coisas. 

OUÇA MANCHACA VOL1

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