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Adentrando no Espaço da Sun Ra Arkestra

Sun Ra Arkestra na capa do disco Swirling

Após mais de 20 anos sem lançamentos, a Sun Ra Arkestra lançou o álbum Swirling. Fonte: Divulgação/Sun Ra Arkestra

Se você é um fã ávido de jazz, ou já tentou se aventurar no gênero, provavelmente pode ter esbarrado em algum momento com o som e a história de Sun Ra e sua Arkestra. O grupo fundado em 1958 é conhecido pelo visual e sua filosofia que misturam elementos do Egito Antigo e espaço sideral. Sua música, apesar de ter mudado muito entre 1957 e 2020, mantém a inspiração espiritual/espacial pensada por Sun Ra nos primórdios do grupo.

Sem dúvidas, o impacto do músico e seu grupo foi sentido na cultura, afinal eles foram pioneiros naquilo que veio ser cunhado como afrofuturismo – base para a carreira de artistas como George Clinton, FKA Twigs, Erykah Badu e tantos outros.

O músico Sun Ra “deixou o planeta” em 1993, mas os membros do grupo decidiram continuar na ativa sob a alcunha de Sun Ra Arkestra. A decisão veio da necessidade de fazer com que a obra faraônica do músico continuasse viva e atual – em sua vida, Sun Ra gravou mais de 1000 músicas. 

Atualmente, os músicos são comandados por Marshall Allen, membro da Arkestra desde sua fundação em 1958. Inclusive, foi ele quem atuou como o maestro da gravação de “Swirling”, disco lançado pelo grupo em outubro de 2020. “O desafio principal em conduzir a Arkestra é fazer com que todos estejam em sintonia e todos os universos transbordem juntos”, explicou Allen em entrevista exclusiva ao Noise Gate

O novo álbum da Arkestra conta com regravações de clássicos como “Angels and Demons at Play” e “Seductive Fantasy”. O disco é tocado por 15 músicos de gerações diferentes; dentre eles os veteranos Knoel Scott e Elson Nascimento, que também conversaram com o Noise Gate sobre a produção do disco novo. 

Scott conta que os músicos possuem liberdade para experimentar durante os shows e gravações, mas sem nunca deixar Sun Ra fora do processo sonoro. “Antes de todos os shows, nos reunimos em círculo para invocar Sun Ra. E esperamos que o espírito dele visite a todos nós”, diz o músico responsável por um dos saxofones alto em “Swirling”. A ligação com o fundador do grupo é muito forte mesmo 27 anos após sua passagem na Terra.

Talvez esta profunda conexão espiritual explique algo dito por Sun Ra durante uma entrevista na década de 1980: “Eu realmente não sou um homem, sabe. Eu sou um anjo. E se você é um, você está um passo acima do homem”. O músico continua guiando a banda por seu som.

Para os membros veteranos, há dois fatores que diferenciam os novos membros e quem está na Arkestra há mais tempo: experiência e quem conheceu Sun Ra pessoalmente. Porém, estas diferenças não diminuem a importância dos mais novos. “Lembro uma vez que Sun Ra chamou um menino para tocar bateria com ele durante um ensaio. O garoto não sabia nada e dependeu do espírito para tocar – mesmo assim agradou Sun Ra. Enquanto isso, o baterista mais experiente não estava conseguindo reproduzir o som esperado”, relembra Marshall Allen ao refletir sobre o papel dos companheiros mais jovens da Arkestra.

Se você parar para ler os créditos de Swirling, pode se surpreender com a presença do instrumento surdo no meio da Arkestra, mas ele não é nenhuma novidade no universo sonoro de Sun Ra. O brasileiro responsável por ele, Elson Nascimento, está no grupo desde 1988 e explica como Sun Ra encaixou o “coração do samba” dentro do jazz:  “Sun Ra gostava de percussão e convidou esse som para fazer parte de sua seção rítmica. Tudo é possível. E ele sempre me deixou muito à vontade”

Nascimento também conta que não houve receio em regravar clássicos criados por Sun Ra no novo disco. “Não havia medo de tocar músicas que Sun Ra imortalizou porque ensaiamos e tocamos essas músicas com ele muitas vezes. Ao mesmo tempo, ele encorajou a criatividade de todos”, sintetiza o percussionista brasileiro.

O som da Sun Ra Arkestra mudou imensamente desde o seu começo no fim da década de 1950, mas o compromisso de Marshall Allen com a música e a filosofia de Sun Ra continuam firmes e fortes. “Música é sobre paz e a cura da alma. Ela afeta suas emoções e te ajuda a lidar com a vida. É tudo sobre o som. Com certeza, o jazz tem muito apelo ao mundo ainda, pois é uma maneira genuína de expressar os sentimentos. Não creio que houve um período melhor para ele. Ao longo dos anos 60, 70 e até hoje, o som foi mudando;  houve uma vibração diferente, e boa, para todas as épocas”, pontua o líder de 96 anos. 

A constante renovação também abre portas para uma história ainda mais longeva que os atuais 62 anos do grupo. Elson Nascimento acredita  que a Sun Ra Arkestra pode durar a eternidade: “Por que não. Músicos mais novos que entendem sua música e seu estilo de vida podem continuar com seu som e também improvisar de sua própria fonte criativa. A Arkestra tem muita musica para ser tocada”.

Ouça Swirling, o novo álbum da Sun Ra Arkestra, logo abaixo:

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