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Entrevista: Josh Klinghoffer fala sobre Pluralone e RHCP

Josh Klinghoffer deu entrevista ao Noise Gate em uma chamada animada pelo Zoom

Josh Klinghoffer deu entrevista ao Noise Gate em uma chamada animada pelo Zoom

No dia 15/12, fará um ano que o Red Hot Chili Peppers anunciou o retorno de John Frusciante às guitarras do grupo. A volta do músico à banda animou os fãs, mas ela também significou uma grande mudança para Josh Klinghoffer, que já estava com o RHCP há 10 anos. Curiosamente, realizamos uma entrevista com ele poucos dias antes do anúncio de sua saída, contudo apenas conversamos sobre seu primeiro disco “solo” pelo projeto Pluralone.

Desde então, o mundo passou por uma enorme pandemia, grandes mudanças políticas e Josh já lançou outro álbum, o sensacional I Don’t Feel Well. Por isso, decidimos fazer uma nova entrevista com ele para saber mais sobre o segundo trabalho solo, sua vida na pandemia e alguns sentimentos com relação ao seu período no RHCP. 

Embora o nome de seu novo disco dê a entender que ele não esteja bem, nosso papo virtual pelo Zoom provou que Klinghoffer está gostando da nova fase de sua vida e é grato a tudo que conquistou com o Chili Peppers. 

Confira a segunda entrevista do Noise Gate com Josh Klinghoffer sobre seu projeto Pluralone:

Da última vez que conversamos, você falou sobre como o primeiro álbum do Pluralone era uma “belo retrato” da vida que você tinha. Você acha que o novo álbum também é isso? Ou é um sentimento completamente diferente?
Josh Klinghoffer: Acho que é algo diferente. Sempre será algo diferente, por causa daquilo que está acontecendo ao seu redor. Mas este novo é muito mais focado do que qualquer coisa que eu já fiz, pois tudo foi  feito durante o mesmo período de quatro semanas – enquanto o primeiro foi feito durante sessões de gravação muito diferentes e espaçadas. Todas as músicas de I Don’t Feel Well estavam basicamente compostas ou acabadas antes disso, então acredito que o álbum seja uma breve imagem do agora. 

Creio que você não esperava lançar algo novo tão cedo. O que lhe inspirou a gravar o álbum I Don’t Feel Well? A pandemia, sentimentos enlatados ou uma explosão criativa?
Josh Klinghoffer: Eu certamente não planejava (risos). Acho que foi uma explosão criativa, mas também penso que isso foi permitido graças à uma enorme quantidade de tempo livre. Nunca em um milhão de anos teria imaginado que eu teria zero planos para este ano. Uma vez que tinha marcado a turnê com o Pearl Jam, já imaginava que gastaria todo 2020 viajando. Então, quando eu percebi que não tinha planos, percebi que não haveria outra coisa melhor para fazer do que um álbum. Desde que eu era criança, nunca tive um momento sem planos como esse. 

É legal ver como o som do seu projeto solo evoluiu muito em um curto espaço de tempo. O novo disco soa melhor acabado e diverso em sua sonoridade. Qual era o seu principal objetivo com I Don’t Feel Well?
Josh Klinghoffer: O que eu sempre tento atingir a comunicação mais real e honesta que eu consigo – e eu ainda me pego acreditando que não consigo atingir este limite que imponho. Isso não diz respeito somente às letras, mas também sobre a melodia, os vocais e a quantidade de sons em um disco. Eu só estou tentando ser o mais real sobre o momento, e esse é o maior desafio quando você grava um disco em longos períodos de tempo. No primeiro álbum, foi difícil pegar força e momento para conseguir continuar algo após passar meses sem mexer naquilo. Lembro-me especificamente da música Save. Eu fiz uma demo para ela que acabou exatamente igual ao que saiu no álbum. Não estava pensando nisso, eu esperava que fosse mudá-la, mas quando chegou a hora de fazer isso eu estava cansado e emocionalmente drenado de todo o trabalho com o Red Hot Chili Peppers. Lembro de ter ficado chateado achando que perdi a oportunidade de fazer algo real – não quero dizer que não gosto da música, mas ela não me parece uma verdadeira captura de onde eu estava no momento. Enfim, sempre tento melhorar em ser mais direto e estar em contato com o momento da minha criatividade.

Desde o primeiro acorde na música Red Don’t Feel (que abre o disco), dá para ter uma noção que o disco teria sentimentos como raiva, tristeza e muitos outros. Você acredita nisso? De onde veio essa mistura de emoções?
Josh Klinghoffer: Ao ouvir você falar isso, percebo que pode ter sido uma coisa inconsciente minha; ser capaz de extravasar uma multitude de emoções em uma música. A música pode soar de uma forma, mas esperançosamente pode ter a capacidade de demonstrar diferentes sentimentos e locais  para estar dentro de seu terreno emocional. Então, acho que eu não posso dizer que foi algo consciente, mas quando escrevo uma música ou letras eu sempre tento criar um dicotomia e uma pluralidade para dar ao ouvinte e à música formas diferentes de ser percebida. Sei lá, isso soa como um objetivo muito elevado. É isso que penso muitas vezes. É legal deixar a música aberta à interpretação.

Cheguei a ler em uma entrevista que quando você estava escrevendo a música The Report (O Relatório, em tradução) a ideia veio de algo na TV sobre política, mas acabou virando uma análise de seus próprios sentimentos.
Josh Klinghoffer: Sim, eu estava sentado na cama e assistindo Robert Mueller testemunhar ao congresso… não tenho certeza, talvez estivesse vendo o procurador geral dos EUA dar um depoimento torto sobre o relatório de Mueller. Estava vendo história sendo feita e tinha relação com todo o circo de Donald Trump. E eu estava tocando acordes que tinha ligação com o momento. Essa música tinha uma vida útil e eu fui mostrar para o Chili Peppers, mas acabei usando- a para mim. Como qualquer coisa, foi feita com um certo sentimento, mas na hora da finalização eu pude olhar para trás e atualizar seu significado. Perguntar para mim se o que eu estava sentindo sobre o mundo poderia valer para mim também.

Como aconteceu o processo de gravação do disco durante a pandemia? Foi em casa ou dentro de um estúdio?
Josh Klinghoffer: Eu fui a um estúdio. Trabalho no Palmquist Studios com um cara chamada Eric Palmquist desde 2014 – inclusive foi lá que gravamos o segundo disco do Dot Hacker. Lá, tinha só nós dois de máscara e fazendo testes direto, o que nos deixou seguros. Mas eu fiz demos em casa do álbum inteiro antes de chegar lá. Gravei ele na minha tape machine para conseguir chegar rapidamente à ideia do que eu faria no estúdio. Jack Irons tocou bateria em algumas músicas através de gravações que ele fez na casa dele e mandou. Isso é quase como magia para mim. Não acredito que possamos fazer isso. 

Jack Irons trabalhou novamente contigo neste projeto. Você o enxerga como parte da existência do Pluralone?
Josh Klinghoffer: Até hoje o projeto não conseguiu despontar como uma banda, pois nunca tocamos ao vivo. Mas Jack é um baterista que eu sempre amei; a maneira que ele toca o instrumento é sensacional para mim. E consegui me tornar amigo dele ao longo dos últimos dois anos. Sua vontade de participar no primeiro disco foi para mim uma inspiração imensurável. Ele é totalmente parte do Pluralone, mas eu toparia qualquer oportunidade de tocar com ele. Sempre vou aceitar o que ele quiser fazer.

Você estava prestes a abrir para o Pearl Jam na turnê para o disco novo deles. O que você sentiu quando os shows foram adiados?
Josh Klinghoffer: Eu não tive muitos sentimentos, porque havia tantas coisas maiores para nos preocuparmos naquele momento. E como eu disse, eu nunca tive desde jovem tempo livre, e isso foi algo muito gostoso para mim. Especialmente, depois de fazer turnês e trabalhar duro sem parar com o Chili Peppers por 10 anos. Tive que gastar uns oito dias para ajustar minha vida ao fato de não estar mais com aquela banda antes de pensar em como tocar o primeiro disco em em um show ao vivo. Então, ao mesmo tempo que eu estava muito animado com a turnê, eu estava pensando sobre os shows sob muita pressão, nem imaginava o quão cansativo era fazer isso até o cancelamento. Me senti muito mal pelo Pearl Jam, pois eles estavam super animados de tocar as músicas para o mundo. Também me senti mal pelos fãs ao redor do planeta. Mas tínhamos tantas coisas para ter medo (morrer, perder empregos e casas) que não pensei muito nisso. O Pearl Jam não vai a lugar nenhum, então, caso a tour aconteça em 2021 ou 2022, não creio que muito mudará.

O tempo livre que surgiu te ajudou de alguma forma a pensar mais sobre o funcionamento dos seus shows solo?
Josh Klinghoffer: Eu meio que parei de pensar, porque (pelo que parece) não vai acontecer tão cedo. No máximo, o tempo livre me fez perceber o quão louco sou de pensar que poderia fazer aquilo sozinho. Eu ainda planejo fazer isso, mas só penso em como o potencial para falhas é enorme (risos). Estava prestes a me jogar a essa situação como um touro, e agora penso em como eu me daria sozinho com uma audiência que pode não gostar do meu trabalho. Porém, de vez em quando penso se haveria outra forma de fazer e penso em ensaiar, mas não tem muito como me preparar. A única coisa mesmo foi preparar quais seriam os equipamentos que eu usaria, mas todos ficaram lá em Seattle [Josh está passando o isolamento em Los Angeles]. No momento, prefiro escrever músicas.

Você já está trabalhando em novo material?
Josh Klinghoffer: Sim, estou com algumas músicas extras ou lado b que eu não consegui finalizar até o lançamento do álbum, porque só tinha tempo para fazer as 10 músicas do disco. Então, tenho algumas coisas sendo mixadas agora mesmo. Eu pensei que já faria um novo álbum, mas estou mais lento do que eu esperava. Ao invés disso, tenho usado bastante o meu sintetizador modular. Estou aprendendo a mexer nesses módulos que comprei há anos, mas nunca tive muito tempo para usar. Estou me divertindo gravando improvisações com ele. Eu escrevo e componho pelo menos umas três ideias por dia, porém não tenho sentado para terminar as coisas. Acho que isso rola porque finalmente estou em uma fase que não me martirizo mais por não ficar trabalhando o dia todo. Acabei de fazer um álbum, então é ok se eu ficar mais lento. Quando terminei o I Don’t Feel Well até pensei “beleza, vamos lançar outro disco em março”, mas percebi que eu parecia uma pessoa maluca. Estou deixando rolar. No entanto, se eu ficar 5 anos sem gravar nada, aí vou procurar ajuda (risos).

Acha que algum desse material pode render um disco novo com o Dot Hacker?
Josh Klinghoffer: Não diria que um disco novo, mas já terminamos uma música nova. Estamos fazendo tudo de maneira remota. Vamos ver quanto tempo levamos para ter composições suficientes. Da última vez que lançamos um álbum foi quando Donald Trump fez seu juramento para virar presidente. Então, teríamos que lançar algo em 2021 para comemorar o passo à frente que o mundo deu.

Mudando um pouco de assunto, gostaria de saber algo mais voltado à indústria musical, Você tem a experiência de realizar discos para gravadoras independentes e também para uma das maiores no mercado (durante seu período com o Chili Peppers). O que você pode dizer sobre estes dois universos diferentes?
Josh Klinghoffer: Eu não tenho, necessariamente, muita experiência para comentar sobre, porque estar na Warner Bros. com o Chilli Peppers não tinha muito a ver comigo. Eles estavam com a gravadora muito antes de eu entrar. A minha preocupação era fazer parte da banda e fazer as músicas – elas eram lançadas em uma escala massiva, mas não tinha nada a ver com essa parte. Mas ao mesmo tempo, com Pluralone e Dot Hacker, eu tenho um relacionamento com Andrew [Rossiter] da ORG Music que é muito antigo. Somos amigos e ele foi admirável de lançar discos meus sem pedir que eu me envolva diretamente com a promoção. Eu não tenho muito essa preocupação de estar em uma gravadora independente, porque o que me importa é mandar o disco por email para esse cara poder lançar.

Quando você estava no RHCP, você sentia que possuía liberdade para criar as coisas que queria? Ou acabava ficando mais de lado no processo de composição?
Josh Klinghoffer: Eu sempre fui muito livre para criar as coisas que criei, mas é um tipo de liberdade engraçada. Querendo ou não, quando você está com uma banda que já é estabelecida, há um determinado som ou uma fórmula para que a coisa exista. Tanto eu quanto o Flea possuímos a mesma liberdade para criar, mas nem sempre podemos tornar isso realidade, afinal a banda é o que é. E as pessoas são quem elas são. Você sempre luta contra diferentes forças. Ninguém nunca impôs regras a mim, porém também há uma maneira de trabalho que eu deveria existir. Houve vezes em que eu e Flea levamos coisas que soavam muito além paleta sonora daquela banda, mas nem sempre rola algo.

Creio que os fãs puristas de bandas clássicas (como o caso do Red Hot) podem ser muito duros com um músico, especialmente se ele não é um dos “membros clássicos”. Como você lidou com esse tipo de recepção mais grosseira durante seu trabalho com a banda?
Josh Klinghoffer: A única pressão que eu sentia vinha de mim mesmo, até porque sou mais purista que esses fãs. Eu queria soar como uma versão da banda que eu achava que fosse mais ligada ao que eles foram no passado. Eu não prestava atenção no que esses fãs falavam, porque eles diziam coisas horríveis sempre. Mas ao mesmo tempo, houve quem sempre me apoiasse. É difícil se jogar no meio da opinião de outras pessoas. No fim do dia, não acho que a opinião dos fãs seja o que você deve olhar quando está tentando criar. Certamente, se eu senti pressão foi por mim. Eu queria atingir o mesmo patamar que banda teve antes de eu chegar. Se isso foi possível, é outra questão. Mas foi sempre o foco fazer músicas do Chili Peppers que eu amaria tanto quanto as minhas favoritas dele.

Você tocaria alguma das músicas que fez com o RHCP em seus shows solo?
Josh Klinghoffer: Não, acho que só consigo fazer músicas tipo The Report ou The Night Won’t Scare Me que começaram a ser feitas com a banda. Trabalhamos nelas um pouco, mas elas foram descartadas quando saí. Eu tinha ideias de vocal, então não teve muito mistério em trazê-las para a sonoridade do trabalho. Mas deve haver outras ideias que testei com eles que podem reaparecer. Certamente não me vejo tocando músicas do Chili Peppers, simplesmente porque.. eu conheço essa banda de uma maneira íntima e aquelas músicas são muito sobre as emoções de Anthony e quem ele é. Não acho que haveria como traduzir essas coisas.

E fazer algo tipo o Dave Mustaine fez quando saiu do Metallica – ele pegou algumas ideias de riff e as regravou com o Megadeth. Acha que essa seria uma possibilidade para os seus riffs que já entraram em músicas do Chili Peppers?
Josh Klinghoffer: Não seria a mesma coisa, e eles também não irão usar as músicas que escrevemos juntos. The Night Won’t Scare Me talvez seja a única, pois definitivamente gravamos uma demo instrumental dela. Há algumas progressões de acordes que mostrei para eles que eu gosto muito, e acho uma pena que elas nunca mais serão algo. E também tem coisas que eu não consigo imaginar sem a voz de Anthony. Quem sabe algum dia não consigo uma participação especial dele em um disco. Acho ele um dos melhores cantores e compositores, porque ele continua a crescer. Não acho que a banda cresça tanto em seu som quanto Anthony cresce como um cantor e letrista. O fato dele ser um comunicador emocional mantém as músicas vivas e sofisticadas. Consigo ouvir as músicas dos dois álbuns [I’m With You e The Getaway] de uma maneira desconectada e pensar tipo “Ethiopia” é uma das melhores músicas que essa banda fez. Sei que há quem goste das músicas e quem também não veja tanto significado cultural nelas, mas se as pessoas realmente pararem para ouvir Anthony, vão perceber que é o motivo de manter a banda viva e continuar atraindo novos fãs. Me sinto até meio “abençoado” de poder trabalhar com ele durante 10 anos. Todos eles são pessoas únicas e incríveis. Poder estar perto de pessoas interessantes e interessadas é algo indescritível – ainda mais em uma banda com um grande impacto cultural. Não consigo ser mais grato, queria que todas as pessoas pudessem ter esse tipo de oportunidade.

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